Bastidores da Alma


Em Cuiabá

09/09/2005

Estava em frente ao Aquário Municipal, dei uma passada no Museu do Rio. O calor era intenso, comprei um refrigerante, já tinha tomado uma água de côco, e me sentei na “mureta” frente ao rio Cuiabá.

Viajava em meus pensamentos quando se aproxima de mim um homem alto, magro, com as vestes sujas. Ele resmungou algo, reclamava de algumas pessoas.

O olhei pela lente azulada de meus óculos escuros.

Ele encostou-se à “mureta”, me pediu um trocado, disse ser usuário de drogas, e tinha os olhos vermelhos, pareciam estar em chamas.

Eu perguntei-lhe se o dinheiro era para comprar droga. Porque se fosse, eu lhe daria pela sinceridade. Fico irritada quando me pedem um trocado com a desculpa esfarrapada do leite da criança.

Pois bem, John, é assim que ele é conhecido, me explicou que era usuário de drogas sim, e que havia passado à manhã toda fumando (perguntei se ele usava maconha, o que acredito te ofendido, ele disse: “Não! Eu não sou maconheiro, eu fumo pedra”.), mas que naquele momento estava com fome, e queria comer algo.

-É um negócio que corrói aqui, sabe? - Ele dizia indicando o peito.

João me contou que batia na ex-mulher e nos filhos, e que espancou uma mulher até a morte. Justificou que fora sem querer, estavam os dois muito bêbados numa praça e ele a empurrou (de um coreto, acho), no que ela caiu, bateu a cabeça e morreu.

Enquanto conversávamos apontou uma mulher dizendo:

- Aquela é Sandra Louca, ela nem precisa de droga pra ficar louca. Já é louca por natureza. – E ria um riso despreocupado.

Sandra estava abraçada a um homem próximo ao rio.

John me contou que ela desgraçaria a vida dele.

- O homem dela ta preso, ta na cadeia, e já mandou dizer que quando sair vai matar esse aí – dizia apontando em direção ao casal.

João havia me contado que às vezes tinha relações sexuais com a Sandra, foi quando lhe perguntei:

- Mas e você? Afinal se o tal “homem da Sandra” mataria o amante, porque não mataria John?

Foi quando ele abriu um sorriso, que he faltava alguns dentes, dizendo:

- Mas ele é meu amigo! Ele gosta de mim. E além do mais eu só como ela quando eu to bêbado, porque quanto eu não to e ela vem pra perto de mim, eu já falo logo: Sai fora muié feia da porra!

 



Escrito por Marcelha às 16h35
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Dores de amor

Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40º,uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade. Metade deste povaréu
sofre de Dor de Cotovelo. Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos tem um amor mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.
Por que isso acontece? Tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórico no assunto. Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim. Você sabe, o amor acaba. É mentira dizer que Não. Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais. Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: lembranças, amizade, parceira, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor for devorado até o fim.
Dor de Cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote. O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas etapas:atração-paixão-amor-
convivência-amizade- tédio-fim.
Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos. Mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão
sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para novos amores.
Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter
dito e não disse, feito e não fez. Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim.
Enfrente os bons e maus momentos.
Passe por tudo que tiver que passar, não se economize!
Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade. Amores precisam dar a volta ao
redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo. Isso é que libera a gente para Ser Feliz novamente.

Arnaldo Jabor

 



Escrito por Marcelha às 15h05
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Foi muito bom estar longe de casa por alguns dias, mesmo que poucos.

Estar num lugar onde ninguém sabe meu nome, o que fui, o que sou, o que faço...

Senti essa necessidade.

Quero estar comigo. Preciso estar comigo...

Foi nessa viagem que tomei algumas decisões.

A de que vou embora, por exemplo.

Ainda não sei pra onde, só sei que não quero ficar aqui.

Essa cidade não merece meu investimento.

Como posso investir capital, meu conhecimento num lugar que não me valoriza?

Além do mais, como disse acima, preciso estar comigo...

Muitas coisas aconteceram nesses últimos dias, nesse mês.

E algumas decisões fazem-se necessárias, mesmo que adiadas.

 


 

 

 

Fuga nº 2


 
Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma roupa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr num automóvel
Enorme, forte, a sorte, a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustaram só em olhar
Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou
Faróis altos e baixos
Que me fotografam a me procurar
Dois olhos de mercúrio
Iluminam meus passos a me espionar
O sinal está vermelho
E os carros vão passando
E eu ando, ando, ando ...
Minha roupa atravessa
E me leva pela mão 
Do chão, do chão, do chão ...
Pra onde eu vou, ah 
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou 
Rita Lee
Sérgio Dias 
Arnaldo Baptista


Escrito por Marcelha às 14h07
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